Minha vida é nada demais. Não acontecia nada
fora do normal. Trabalhava, praticava capoeira, saia com meus amigos, tocava
berimbau, e conversava na praça cidade. A vida era boa. Não mexia com ninguém,
e ninguém mexia comigo. Foi uma vida tranquila. Não pensava muito, e nada me
incomodava.
Me chamo Coca. Me lembro muito bem de um dia muito anormal. Esse dia
mudou minha perspectiva inteira. Me fez pensar. Estava descarregando um
cargueiro quando ouvi algo de um cara tentando entrar na igreja de minha cidade,
mas o padre não o deixava. Alguém disse que o cara tinha uma cruz. Pensei nada
disso, mas quando foi para a praça me lembrei disso quando eu vi um homem
sentado em uma cruz no meio da praça! O povo da cidade estava todo agitado.
Alguns queriam que o padre deixasse entrar, outros não. A maioria só estava lá
por causa do ânimo. O homem foi até engraçado. Foi tão humilde, mas tão
determinado. E tudo isso por um burro! Ele fez a promessa para pedir ajuda da
Iansão por seu burro—até dava vontade de rir.
Era dia da Santa Bárbara. Não achava nada das circunstâncias. Eu estava
morto de cansaço—sóqueria descansar, comer, e jogar capoeira com os meus
amigos. Para mim, o homem já tinha entrado na igreja. O cara andou sessenta
léguas! Não vejo diferença entre a Santa Bárbara e aIansão. Santa é santa. Que
que tem se o homem fez promessa a uma e vai cumprir com a outra? Não é a mesma
coisa? De qualquer jeito, o negócio começava a ficar louco. Tinha repórter,
fotógrafo, policial—até o arcebispo mandou o monsenhor!
O homem era gente boa. Um cara que não fazia mal a ninguém, sabe? Esse
homem tinha uma honestidade que até dava medo. Foi uma honestidade teimosa! Não
sei porque não aceitou a idéia do monsenhor. Teria resolvido tudo. Eu teria
aceitado. Mas esse homem não, porque esse acordo não fazia parte da promessa
que fez com Iansã.
Até que chegou o delegado com outros policiais. Eu estava jogando
capoeira com meus amigos, ainda tentado desfrutar o feriado, mas de repente vi
os policiais ajuntados. Adverti o homem e tentei convencê-lo fugir, mas o cara
era teimoso. Não largava a cruz, e não sairia sem deixá-la na igreja.
Se tem algo que me irrita, é gente safada. Realmente me deixa bravo. E o
cafetão, Bonitão, é safado demais. Foi ele que trouxe o policial, e agora
estavam fazendo injustiça. O delegado e o secreta também eram safados. Não
protegiam justiça, mas protegiam seus próprios interesses. São todas falsas.
Foi então que fiquei bravo. Eu não deixaria os policiais levarem esse homem.
Quando os polícias caíram em cima do homem, eu e meus amigos capoeiras caímos
em cima deles para defender o homem. Porém houve um tiro e o homem morreu.
Não é injustiça? Os homens pagos
para defender liberdade acabaram administrando injustiça. Desde esse dia, não
agüento mais caras falsas. Percebo rapidamente se alguém está fingindo algo só
por seus próprios interesses. Foi essa atitude mesma que criou esse problema
inteiro. Todo mundo queria aproveitar desse homem, ou querendo que entrasse, ou
querendo que demorasse. Esse homem, quem não fazia nada errado, acabou sendo
morto por causa do egoísmo de uma cidade.

