Thursday, November 21, 2013

O Assassino Egoísto (uma crônica)

Minha vida é nada demais. Não acontecia nada fora do normal. Trabalhava, praticava capoeira, saia com meus amigos, tocava berimbau, e conversava na praça cidade. A vida era boa. Não mexia com ninguém, e ninguém mexia comigo. Foi uma vida tranquila. Não pensava muito, e nada me incomodava. 
            Me chamo Coca. Me lembro muito bem de um dia muito anormal. Esse dia mudou minha perspectiva inteira. Me fez pensar. Estava descarregando um cargueiro quando ouvi algo de um cara tentando entrar na igreja de minha cidade, mas o padre não o deixava. Alguém disse que o cara tinha uma cruz. Pensei nada disso, mas quando foi para a praça me lembrei disso quando eu vi um homem sentado em uma cruz no meio da praça! O povo da cidade estava todo agitado. Alguns queriam que o padre deixasse entrar, outros não. A maioria só estava lá por causa do ânimo. O homem foi até engraçado. Foi tão humilde, mas tão determinado. E tudo isso por um burro! Ele fez a promessa para pedir ajuda da Iansão por seu burro—até dava vontade de rir. 
            Era dia da Santa Bárbara. Não achava nada das circunstâncias. Eu estava morto de cansaço—sóqueria descansar, comer, e jogar capoeira com os meus amigos. Para mim, o homem já tinha entrado na igreja. O cara andou sessenta léguas! Não vejo diferença entre a Santa Bárbara e aIansão. Santa é santa. Que que tem se o homem fez promessa a uma e vai cumprir com a outra? Não é a mesma coisa? De qualquer jeito, o negócio começava a ficar louco. Tinha repórter, fotógrafo, policial—até o arcebispo mandou o monsenhor! 
            O homem era gente boa. Um cara que não fazia mal a ninguém, sabe? Esse homem tinha uma honestidade que até dava medo. Foi uma honestidade teimosa! Não sei porque não aceitou a idéia do monsenhor. Teria resolvido tudo. Eu teria aceitado. Mas esse homem não, porque esse acordo não fazia parte da promessa que fez com Iansã. 
            Até que chegou o delegado com outros policiais. Eu estava jogando capoeira com meus amigos, ainda tentado desfrutar o feriado, mas de repente vi os policiais ajuntados. Adverti o homem e tentei convencê-lo fugir, mas o cara era teimoso. Não largava a cruz, e não sairia sem deixá-la na igreja. 
            Se tem algo que me irrita, é gente safada. Realmente me deixa bravo. E o cafetão, Bonitão, é safado demais. Foi ele que trouxe o policial, e agora estavam fazendo injustiça. O delegado e o secreta também eram safados. Não protegiam justiça, mas protegiam seus próprios interesses. São todas falsas. Foi então que fiquei bravo. Eu não deixaria os policiais levarem esse homem. Quando os polícias caíram em cima do homem, eu e meus amigos capoeiras caímos em cima deles para defender o homem. Porém houve um tiro e o homem morreu. 
Não é injustiça? Os homens pagos para defender liberdade acabaram administrando injustiça. Desde esse dia, não agüento mais caras falsas. Percebo rapidamente se alguém está fingindo algo só por seus próprios interesses. Foi essa atitude mesma que criou esse problema inteiro. Todo mundo queria aproveitar desse homem, ou querendo que entrasse, ou querendo que demorasse. Esse homem, quem não fazia nada errado, acabou sendo morto por causa do egoísmo de uma cidade.

Thursday, November 14, 2013

A Subjetividade de Milagres

Em primeiro lugar, mesmo admitindo a intervenção de Santa Bárbara, não se trataria de um milagre, mas apenas de uma graça. O burro podia ter-se curado sem intervenção divina.

(Dias Gomes, O Pagador de Promessas)

Essa citação é falada pelo padre da igreja da Santa Bárbara. Ele está falando ao Zé-do-Burro.  Zé estava contando sua história e o milagre que aconteceu com seu burro. Também estava contando a promessa que fez. Antes desse momento, a audiência e os personagens do teatro estava pensando que Zé estava fazendo uma coisa muito religiosa. Talvez um pouco demais ou fanático, mas uma coisa até louvável. Nesse momento, porém, Zé conta que foi a um candomblé para pedir a benção e fazer a promessa.

Ao ouvir isso, o padre ficou bravo. De repente, tudo que aconteceu com Zé foi "uma graça" e não um milagre. Foi um engano de uma feiticeira. Sem dúvida, se Zé tivesse ido a uma igreja católica, o padre teria vangloriar a história e o milagre. Seria um grande milagre. Teria contado a história para toda a igreja e todas a pessoas com quem falava. Em ves disso, condenou a história e desacreditou o milagre.

Eu acho que essa maneira de tratar milagres muitas vezes desiludem pessoas, especialmente pessoas que não praticam uma religião. Quando suporta nossas crenças, declaramos uma coisa um milagre ou uma verdade. Se não suporta nossas crenças, a declaramos uma mentira, uma coicidência, ou "uma graça." Eu acho que temos que tomar cuidado disso. Até na missão, eu acho que muitas vezes olhamos a uma coisa e a chamamos de milagre, porque queremos encontrar milagres em nosso trabalho. De fato, creio muito em milagres, mas devemos tratar os acontecimentos em nossas vidas sem subjetividade. Não deve mudar dependendo de como suporta nossas ideias.

Thursday, November 7, 2013

O Segredo de Liberdade

"Podem desterrar-nos,
Levar-nos
Para longes terras,
Vender-nos como mercadoria,
Acorrentar-nos
À terra, do sol à lua e da lua ao sol,
– mas seremos sempre livres
se nos deixarem a música!"

(Noémia de Sousa, "Súplica")

O que é liberdade? O que faz um povo livre? O povo moçambicano tem uma história de escravidão e opressão. Noémia de Sousa é uma poeta moçambicana e escreveu um poema sobre liberdade e Moçambique. No poema “Súplica,” Noémia de Sousa demonstra que um povo sempre consegue permanecer livre, por meio da música. Ela faz isso por mostrar como música preserva liberdade e também por várias figuras de linguagem, como anáfora, reiteração, e metáfora. O conteúdo do poema e essas figuras de linguagem estabelecem a diferença entre liberdade externa e liberdade interna. Música é uma liberdade interna, e por isso, não pode ser destruída. 

No poema, Noémia usa muitas anáforas para enfatizar as coisas que não são necessárias para ficar livre. Uma anáfora é uma repetição da mesma palavra no começo de cada verso. Noémia começa cinco versos com a palavra “tirem-nos,” seguida por algum elemento que não é essencial para ter liberdade. Por exemplo, o poema começa, “Tirem-nos tudo, / mas deixem-nos a música!” O leitor encontra muitos versos parecidos com esse. O poema fala que pode tirar do povo a terra, a luz, a lua, e a casa, mas o povo ainda pode ser livre. O efeito dessas anáforas é criar um sentimento que a música é mais importante que todas essas coisas. 

Noémia também usa a reiteração para dar ênfase a alguns pontos. Reiteração é simplesmente a repetição de alguns elementos do poema. Em “Súplica,” Noémia repete ainda mais exemplos de coisas desnecessárias. Essa repetição não é anáfora, mas reiteração. Os versos não começam com a mesma palavra, mas os versos repetem várias coisas que não são necessárias para um povo ser livre. Mesmo que não é anáfora, o efeito é a mesma coisa. “Podem desterrar-nos, / levar-nos para longes terras, / vender-nos como mercadoria, / acorrentar-nos.” Por essas formas e repetições, o leitor percebe que não precisa de muito para ser livre. Noémia então usa a reiteração de novo para enfatizar o que é necessário por liberdade. Noémia repete alguma forma de “deixem-nos a música” várias vezes. De fato, três das quatro estrofes terminam com uma forma dessa frase. Do mesmo modo que repetição mostra tudo que liberdade não precisa, aqui repetição enfatiza que liberdade precisa muito da música. Quanto mais que repete, o mais que fica importante. A única coisa que precisa para ser livre é música: “Mas seremos sempre livres / se nos deixarem a música!” 

Então, música deixa um povo livre. Ao mostrar o que liberdade não é, Noémia mostra que não é possível tirar música de um povo. As figuras de linguagem resumem um conflito entre liberdade externa e liberdade interna. Todas as coisas que Noémia classifica como “pode tirar” são coisas externas. O poema está dizendo que não precisa dessas coisas externas para ser livre. Um povo pode permanecer livre mesmo sem terra, sem luz, e sem casa. Pode permanecer livre mesmo em longes terras, vendidos, e acorrentados. Isso é porque há música. A música é uma coisa interna. Assim, não pode ser destruída. Faz parte de uma pessoa. O que é interessante é que essa coisa interna e invencível, que é música, preserva as coisas externas. Preserva uma história de cultura, de terra, e de casa. Preserva um jeito de pensar e se expressar. A música faz com que todas essas coisas que estão faltando não faltem mais. Pode tirar uma terra, mas uma música sobre a terra faz a terra eterna. O povo ainda tem, em um sentindo, essa terra. 

Então como pode tirar a música? Já que música é interna, não pode a destruir. Além de matar todo mundo, não é possível tirá-la, porque a música faz parte do ser humano. Se exilar, o poeta ainda vai escrever. Se escravizar, o povo ainda vai cantar. A história do mundo testifica disso. Músicos exilados escrevem. Escravos cantam. Música nunca morre. Se música é invencível, liberdade é garantida. E música é invencível. No final do poema, Noémia escreve “deixem-nos a música” como um pedido, mas em realidade, é uma declaração que não é possível tirá-la. 

Por que música preserve liberdade? Porque música é uma liberdade interna. Assim, não pode ser capturada nem destruída. E como o poema, “Súplica,” ensina, “seremos sempre livres / se nos deixarem a música!” Música preserve uma forma de pensar e falar, e preserve uma memória de cultura e todos os outros elementos de liberdade. Um povo pode sempre permanecer livre se utilize esse poder interno. Noémia estabelece isso em seu poema “Suplica” principalmente pela tensão entre liberdade interna e externa. Essa tensão é criada por seu uso de figuras de linguagem, principalmente anáforas e reiteração, que enfatizam os dois lados de liberdade.